BRIC ou BIC?
Jul 26, 2011

BRIC ou BIC?

A participação da Rússia no clube BRIC das grandes economias emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China, tem sido alvo de  discussão por causa do fraco crescimento do país já há algum tempo. No entanto, o desenvolvimento da Rússia ao longo dos últimos 20 anos desde o colapso da União Soviética, é impressionante: a partir de um império arruinado conseguiu-se um estado economicamente forte, com as terceiras maiores reservas de moeda do Mundo. A Rússia tem de longe o maior rendimento per capita entre os países do BRIC. Entre 1998 e 2008 o Produto Interno Bruto russo (PIB) per capita cresceu 7,3 por cento, superado apenas pela China.

A crise económica e financeira de 2008 e 2009 causou um desencanto. Nenhum dos países do BRIC foi atingido tão duramente como a Rússia. A recuperação parece frágil. O Fundo Monetário Internacional alerta que a taxa de crescimento poderá ser inferior a 4 por cento a médio prazo, se não houver reformas no país. A crise provocou o debate sobre o futuro modelo de crescimento. Um dos impulsos deste debate foram os discursos do Presidente russo, Dmitry Medvedev, sobre a modernização da Rússia.

Mais uma vez a Rússia está numa encruzilhada. Após 1991, a transição foi de uma economia planificada para um, ainda que imperfeito, sistema de propriedade privada e preços do mercado. Após a crise do rublo russo em 1998, o elevado preço do petróleo e uma política fiscal conservadora impulsionaram a estabilização macroeconómica. Entre 1998 e 2008 constatou-se a importância do petróleo para a economia da Rússia: cerca de metade do crescimento deve-se à ascensão dos preços do petróleo. Além disso, o consumo floresceu. O crescimento dessa época não foi, portanto, baseado no investimento. A população diminuiu o que levou ao aumento da produtividade. Para além disso, notou-se um melhor aproveitamento das capacidades existentes.

O modelo económico baseado nas matérias-primas e no aumento de consumo está a encontrar os seus limites. O Governo Russo quis salvar esse modelo na última crise e estimulou o consumo. Como consequência, o Governo relatou um défice orçamental em 2009, pela primeira vez em muitos anos. Esta política favorece a inflação elevada. O aumento dos rendimentos do Estado Russo levou a um aumento significativo das  importações, uma vez que os bens de consumo na Rússia são principalmente de origem estrangeira.

As medidas proteccionistas da Rússia servem para proteger a indústria doméstica. As empresas estrangeiras são fortemente encorajadas a produzir na Rússia. O único problema é que a Rússia é um país com um rendimento per capita mediano e custos de produção relativamente altos. Na produção em massa, a Rússia não consegue competir com a China. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento tecnológico não está preparado para a produção de produtos sofisticados. Por estas razões, o foco deve estar no aumento do investimento. A agenda de modernização e diversificação é dedicada a isso. Mas os projectos como o parque de inovação Skolkovo, ordenados de cima, não têm um programa sustentável a longo prazo. Um aumento na cadeia de valor das indústrias existentes seria mais eficaz do que um projecto de farol, que tira a luz das outras iniciativas.

O caminho ideal é, portanto, melhorar o clima de investimento. Medvedev, num discurso recente em Magnitogorsk, identificou dez pontos de reforma que deveriam proporcionar maior investimento na Rússia. Assim, ele pretende reduzir a influência dos funcionários governamentais em empresas estatais, reforçar a privatização e conduzir a reforma política e da justiça. Para além disso, Medvedev está a favor de um reforço do federalismo. Na luta contra a corrupção, Medvedev sugeriu algumas mudanças legislativas. Os economistas próximos ao Governo estão a exigir a redução do défice orçamental, política monetária consistente e recolha das receitas do petróleo no fundo estatal. Até agora, os esforços da reforma de Medvedev tiveram pouco sucesso, talvez pela resistência da equipa em torno do primeiro-ministro, Vladimir Putin, mas também pela natureza prolongada das reformas, pela incompetência dos responsáveis ou por razões da agenda de Medvedev. No entanto, parece haver consenso entre a elite política que a mudança evolutiva deve ter lugar. A estabilidade não se deve tornar numa estagnação.

A vontade de fazer reformas dependerá em todo o caso de como as mudanças serão urgentes. A este respeito, o desenvolvimento do preço do petróleo desempenha o papel mais importante. Mas a Rússia devia tomar a iniciativa, sem esperar mais. Crucial será a questão de até que ponto a economia e política russas conseguirão libertar-se da droga do petróleo e superar a economia estatal.

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